Naturais entre aspas.
Ensaio sobre As Guerrilheiras e Sheiloca de Yuri Marchiori Krivtzoff
Ao ler As Guerrilheiras, de Monique Wittig, e Sheiolca, de LoveLove6, minha mente foi instantaneamente a outro livro, um que eu sempre vejo ao entrar em qualquer livraria, Mulheres que correm com os lobos: mitos e histórias do arquétipo da mulher selvagem, de Clarissa Pinkola Estés. Como o próprio título já revela, a ideia da mulher intimamente ligada ao mundo natural é extremamente presente na nossa cultura ocidental, no mínimo desde o tempo da Safo até o dias atuais, e para o propósito deste ensaio, nas duas obras que vamos analisar.
Parece quase um instinto, ao imaginar uma utopia(ou distopia) só daquelas do gênero feminino, automaticamente pensar nessa imagem, As Guerrilheiras e Sheiloca ambas criam um mundo marcado pelos rituais e pelas suas relações com o mundo natural. Toda a obra da Wittig é marcado pelas histórias que as mulheres contam umas às outras, fábulas, lendas, memórias, sempre em um tom bem ritualístico, de uma comunidade que lembra de quem eles são pela história oral. Inúmeros animais, tanto reais quanto fictícios, caracterizam o mundo da narrativa, desde as que tentaram cuidar dos canários verdes, as que nadavam com os peixes voadores, e as que levavam as “glenúrias” para passear ,e em um exemplo bem didático, Fabienne Jouy nos conta uma história sobre lobos.
Sheiloca é ainda mais claro, a arquitetura das cabanas é claramente inspirada pela a de comunidades indígenas e que junto com o foco nos rituais parece continuar essa conexão de um mundo, por falta de uma palavra melhor, “tribal” e natural, associada ao mundo da flora local habita o fundo de todos os quadrinhos. Mais uma característica, que une esses dois elementos, é o corpo “biológico” da mulher, nos dois livros, a fisionomia associada ao corpo feminino, o útero, a vagina, a menstruação, são todos partes essenciais das vidas das personagens, tanto no que elas fazem como em geral na linguagem utilizada pelas obras. E entre os banhos de óleo e sol nus de guerrilheiras, e os rituais de menstruação de Sheiloca, uma clara continuação entre essa natureza das mulheres e do resto do mundo fica claro.
Se eu acabasse minha análise aqui, poderia concluir que essas duas obras contribuem para a visão senso comum, visto no livro da Éstes, da mulher como um ser natural. A mulher é um ser que se pode encontrar na natureza, tão óbvio quanto a fauna e a flora e tão antiga quanto qualquer civilização. Mas isso não seria uma interpretação justa
De começo, em contraste com esses elementos, os dois mundos são profundamente tecnológicos, as manas de Sheiloca tem visores com GPS para localizar as pessoas, e toda a reprodução da espécie depende numa máquina que produz ovos, as guerrilheiras estão tanto em tanto em contato com a natureza quanto em conflito com ela, se utilizando da tecnologia para moldar a paisagem a sua volta às suas necessidades:
“Os guindastes revelaram as raízes de uma árvore. Com pinças, elas removeram da terra as extremidades filiformes quebradiças onduladas. Nelas estavam presas folhas murchas atrofiadas podres. Delimitando sistematicamente as zonas nas quais a árvore se nutria, elas chegaram ao centro da árvore, ao tronco. Retiraram por completo a árvore enterrada, ramos folhas tronco raízes.”
As mulheres que tentam tanto cuidar dos canários verdes acabam os matando, a história da Jouy sobre os lobos acaba com uma decapitação e com as ouvintes mandando as histórias sobre lobos para o inferno. Minha caracterização inicial da obra se mostra bem injusta, porque mesmo que ela tenha esses elementos naturais como base, ela não deixa de mostrar seus conflitos. Sim, as características “biológicas” da mulher, são pressupostos, mas também questionados:
“Elas dizem que, sendo portadoras de vulva, sabem o que a caracteriza. Conhecem o monte pubiano o púbis o clitóris as ninfas os corpos e os bulbos de vagina. Orgulham-se, com razão, daquilo que, por muito tempo, foi considerado o emblema da fecundidade e da força reprodutiva.”
Ser mulher é ter vulva, mas o que significa ter vulva é outra coisa. Existe uma explícita rejeição da “força reprodutiva da natureza”, dizendo que as mulheres de hoje em dia se orgulham de existirem além dessa força “natural” imposta nelas. E aqui está o cerne da questão, de que essas mulheres são guerrilheiras, são revolucionárias.
O mundo que elas desejam construir precisa justamente ser construído, da mesma maneira que elas modificam o mundo ao seu redor, elas lutam para lutar o mundo, algo que não é dado, “natural”, mas sim construído. Existe explicitamente uma guerra contra os homens, mas não simplesmente os homens, novamente, em um sentido “biológico”, mas sim pela causa, pela ideia do homem e do patriarcado, homens que rejeitam essa ordem lutam junto as guerrilheiras:
“Rapazes vestidos de macacão branco, colado no corpo, correm, em profusão, diante das mulheres. Eles usam bandeiras vermelhas nos ombros e nos calcanhares. Deslocam-se com rapidez, um pouco acima do solo, com as pernas juntas. Imobilizadas, elas observam a aproximação dos homens. Parando à distância e saudando, elas dizem: para você, a vencedora, despojo-me do meu epíteto favorito que costumava ser uma espécie de adorno. Que em meu lugar você possa, de agora em diante, ser chamada aquela que é três vezes grande, mulher trismegistus, você é rápida como o mercúrio é como os assaltantes de estrada, você é hábil em descobrir complôs, é amante da vida e da morte, guardiã da saúde dos aliados. Eles, então, entoam o canto dos assaltantes: os rebeldes de cabelos compridos estão unidos na vida e na morte/não atacam viajantes solitários/ não atacam os desarmados/ mas se um funcionário ou um oficial público se aproximar/ seja ele justo ou corrupto/ eles lhe deixarão apenas a pele sobre os ossos. Elas, aproximando-se dos rapazes de cabelos compridos, abraçam-nos com força.”
Sendo assim, Sheiloca vai um passo alem, primeiro sendo que o livro se auto determina uma distopia feminista, já deixa claro a existencia de um teor de critica a obras como a da Wittig que são utopias. O melhor exemplo disso é a personagem Amapô, que é a maior causa de conflito da HQ pela sua fisiologia não ser a mesma de outras mulheres, não conseguindo participar do ritual da menstruação que é tão importante a essa cultura, acaba alienada de sua comuna.
Não resta muita dúvida, Amapô mesmo não sendo chamada explicitamente disso, é a representação de uma pessoa trans em mundo onde a definição de “mulher” é fortemente associado a essa visão biológica, um modelo de sociedade que, se aparentemente tem algum teor de libertação na maneira que a maioria das mulheres cis conseguem viver sem medo de violencia patriarcal ao usar suas vulvas da maneira que desejam, e não necessariamente para fazer filhos, ainda não consegue englobar todo mundo.
E não é apenas o caso de Amapô, mas também da Sheiloca, a personagem, que é julgada por alisar os seus pelos pubianos, e por querer ter um filho, por motivos não necessariamente maternos(ela parece mais interessada com o prazer sexual do ato). Ela é uma mulher cis, e mesmo assim, a visão do que é “natural” nessa sociedade é diferente da nossa, e assim ela é julgada por querer utilizar seu corpo da maneira que ela deseja. E pela falta de manutenção que a máquina reprodutiva está tendo, é apenas por essas duas personagens alienadas, fora do sistema, que Sheiloca consegue ter um filho(da maneira que nós consideraríamos “natural” no nosso tempo) e que se consegue pensar em uma continuação dessa comunidade ao longo prazo. Assim o livro demonstra claramente sua tese e vai além de As Guerrilheiras, questionando os pressupostos do que é “natural” na nossa sociedade.
Ou seja, ambas obras ainda estão de alguma maneira atrelada aos pressupostos “naturais” de seus tempos, e mesmo que se alguns aspectos eles podem ficar presos a eles, eles também a propositalmente subvertem para mostrar como esse natural não é natural, ele pode ser negado ou mudado, ou simplesmente diferente do que imaginamos.
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