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Diário de "Greve", 05/11/23





[Esse texto vem de uma atividade da mosco da matéria de genero]







Completa honestidade, falhei na promessa que fiz no meu primeiro relato, lá atrás na primeira semana, de tentar escrever no “diário de greve” de maneira semi-recente, sendo essa minha segunda e última “página”. (em certa parte invalido, visto que ela está sendo escrita pós término da greve)



Apesar da leve decepção, não me culpo, pelos motivos que eu tinha pontuado. Para quem estava aqui literalmente todo dia da greve, tentando materializar leite da pedra (principalmente nas últimas semanas) sobrou muito pouco tempo comparado a média dos estudantes, que ou participavam de apenas algumas atividades, ou aproveitaram o tempo para resolver os problemas em casa.



Se parece que estou passiva-agressiva, é porque estou. É infelizmente uma realidade que a greve foi muito desgastante para os resultados do qual sonhávamos (especialmente comparado a nossa maior inveja, a Unicamp) e se antes eu amava os aprendizados da minha primeira mobilização, sai dela exausta junto com meus companheiros. (no mínimo, esse feriado ajudou a recuperar um pouco as energias)

Agora, olhando para trás, tem uma questão que eu achava pertinente registrar aqui, visto o desejo da atividade de relacionar minhas experiências aos temas do curso. Porém, tem mais um motivo que eu demorei muito para escrever esse relato, e é que, em outra decepção, eu não consegui ler a tempo o livro do qual eu me basearia.



“Whipping Girl” é o nome da obra, é o mais importante da autora Julia Serano, uma importante transfeminista responsável pelo termo transmisoginia. Como eu disse, a mistura da sobrecarga da greve mais os novos calendários apertados das matérias que me esperam pós greve me deixam sem fé que eu conseguirei ler esse clássico até o final do ano, então o melhor que posso fazer é ficar devendo posteriormente algo mais bem trabalhado, e até lá, substituir minha falta de leitura com a maneira mais frequente que eu absorvo teorias sobre minha própria existência, as conversas de feministas e pessoas queers(principalmente mulheres trans) da minha vida. Inegavelmente menos acadêmico, mas mais verdadeiro a existência trans.



Enfim, feito essa introdução, a transmisoginia é tão complexa quanto fácil de descrever: ela é a intersecção entre a violência de gênero sofrido pelas mulheres, com a camada adicional da violência sofrida especificamente por pessoas trans. Ela é muitas vezes sentida na pele como a punição da sociedade patriarcal a todos que se alinham ao feminino, a prova mais concreta do ódio misógino impregnado no dia a dia, ao mesmo tempo que é a raiva, o nojo, sobre um corpo que escolheu, de maneira proposital, contrariar a masculinidade. E assim, ela se mostra como a tensão entre a vontade de odiar tudo aquilo que é a mulher, ao mesmo tempo que se deseja rejeitar ver aquelas pessoas como mulheres.



Antes dessa próxima parte, só queria frisar o quanto eu sou privilegiada dentro da USP, um dos ambientes mais seguros quando se trata das minhas questões de gênero quando comparado ao resto do mundo. Porém, isso em parte apenas deixa mais marcante quando as contradições apareciam. Durante essa greve, com todo mundo cansado, e assim “menos alerta” aos preconceitos do dia a dia, as contradições ficaram mais escancaradas, e no meu caso em específico, nunca a transmisoginia se mostrou mais real.



Em certas situações, em que eu teria saído do papel que os outros esperavam de mim, eu era punida com a invalidação da minha identidade. Ninguém tinha dúvida dos meus pronomes, até um dia em que eu fiquei mais brava que o normal em meio a uma reunião, e ao final dela, algo tinha mudado sobre a maneira que as pessoas me viam, quando vieram falar comigo depois sobre meu comportamento, me avisaram como eu estava agressivO e putO, e que eu precisava me acalmar. Independente da validez das minhas ações, a mudança de linguagem foi visível, visto que ela nunca tinha acontecido previamente entre essas pessoas. Foi uma punição, mesmo que inconsciente, pelo meu mal comportamento, por eu ter agido de uma maneira agressivO da maneira que um homem agiria, e não uma mulher. Mas do outro lado da moeda, fui “””recompensada””” posteriormente, sendo vista como mulher, quando a leitura sobre mim tinha mudado, quando eu comecei a ser vista como louca, como muito emocional, pouco racional, por ter opiniões dissidentes, dai ninguem nunca mais se confundiu sobre meus pronomes, a troca de a palavra “histérica” estar sempre na ponta da língua e, em alguns casos, ter sido dita abertamente.



Vi minhas amigas sofrerem das mesmas acusações de serem histéricas por discordarem de seus colegas homens, e vi meus amigos trans, principalmente homens trans, sendo menosprezados pelos militantes cis em varios momentos, mas essa intersecção da transmisoginia, de ter sua identidade “validada” pela misoginia ao mesmo tempo que ela é negada pelas mesmas forças misoginas, com sua identidade sendo alterada de maneira quase estrategica, é algo que marcou meus piores momentos dessa greve, e que em varios momentos, me levou a vontades serias de desistencia. Se não fosse por bons ouvidos a quem eu tive para desabafar, e até uma certa vontade de entendimento dos meus colegas de entender esses problemas, eu teria me retirado da mobilização na primeira semana.



Não acho que preciso dizer o óbvio, como a militância “tradicional” afasta inúmeros grupos oprimidos por meio de sua misoginia, lgbtfobia e racismo, então prefiro acabar com a seguinte observação: nesse exato momento, estou participando dos esforços de reconstruir e fortalecer o coletivo LGBT+ da história e geografia, o Madame Satã, e uma das nossas primeiras atividades está sendo conversar com outros coletivos queer pelo Usp para montar uma rede de contatos, e todos eles, sem nenhuma exceção, contaram como seus coletivos estavam mortos, sem atividades, sem ninguém para cuidar deles. Fica a dúvida então, porque todos os coletivos anti-opressão dessa faculdade parecem ser eventualmente deixados de lado, abandonados? Minha teoria no momento, é porque no fundo, nem muitos de seus membros veem a luta anti-opressão como vital, e é sempre a primeira a ser abandonada vista outras pautas, verei se estou correta nos próximos meses.



Agradeço pelo espaço de escrita e peço perdão por qualquer deslize gramatical que pode ter passado por esse diário escrito à mão do momento.

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